"Sem experiência", Maurício Mendes
Era a quinta vez que nos víamos naquele abril. Para mim, isso já significava alguma coisa. — Tu vai demorar no banho? — Demoro não. Tenho pacientes daqui a pouco. Sofia fez um coraçãozinho com as mãos. — Imaginei. Você sempre tem alguma coisa para daqui a pouco. Em menos de uma hora, eu estaria numa clínica de ultrassonografia examinando grávidas de alto risco. Mediria fêmures, fluxos alterados. Diria frases calmas a mulheres de olhos fixos no teto. Sofia estudava artes. Falava de um jeito leve. Lembrava detalhes pequenos — que eu gostava dos Smiths —, mas nunca deixava claro se aquilo era atenção ou método. Liguei o chuveiro. A água saiu quente. O calor ainda estava em tudo. O cheiro de Sofia resistia na pele. Ouvi o telefone tocar no quarto. — Oi, amor. O ruído da água cobria parte da conversa. Sofia chamava alguns homens de amor. Não todos. — Hoje não dá. — Isso eu nunca fiz. Fechei os olhos. — Não tenho experiência — Sofia disse. Estar ali também exigia alguma experiência de ...