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A propósito de "o privilégio dos mortos"

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Por Milton Rezende O filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “ O mineiro só é solidário no câncer” , frase atribuída a Otto Lara Resende. Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker   com tanta e especial ênfase   que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” ( in A Flor e a   Náusea). Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “ O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza. No romance de Whisner Fr

Carta de um leitor

São Paulo, 25 de fevereiro de 2022.   Caro Whisner, O que logo chama a atenção, em todos os seus contos de O que devíamos ter feito , é o estilo peculiar, singular, a orginalíssima dicção literária, a poesia que atravessa o livro inteiro (tudo “sofisticado”, com “arsenal metafórico e simbólico”, como diz Jamil Snege no prefácio), episódios muitas vezes cruéis (“espécie de cadeia de explosões”), histórias marcadas quase todas pela incerteza dos narradores e personagens, pela indecisão, pelo medo, tudo reflexo da vida perversa atual. Um trabalho primoroso.   Também a estrutura do livro (a sequência dos textos) está muito bem organizada, quase circular, início e fim com as dores da pandemia, a interlocução com a companheira Helena do narrador, entremeada com narrativas em que ela não é citada, um certo intervalo que traz outro tom, ainda bem pessoal, ao texto.   São incontáveis as analogias e metáforas e outras figuras de linguagem e achados literários bastante originais. Cito

Porco de raça – uma distopia brasileira

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 Por Whisner Fraga Bruno Ribeiro (1989) é um escritor, tradutor e roteirista mineiro. Atualmente vive em Campina Grande, Paraíba. Ele é autor dos livros Arranhando paredes ( Bartlebee, 2014), Febre de enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2018), Zumbis (Enclave, 2019), Bartolomeu (Ed. Do Autor, 2019), Como usar um pesadelo (Caos & Letras, 2020) e Porco de raça (DarkSide, 2021). Em 2018 foi finalista do I Prêmio Kindle de Literatura, em 2020 venceu o primeiro prêmio Todavia de não Ficção com um livro reportagem e o primeiro prêmio Machado DarkSide. Esta edição do romance Porco de raça conta com as ilustrações de Vagner Willian. O narrador do livro é um professor paraibano desempregado, negro, sem dinheiro e seriamente encrencado, pois deve para muita gente. O irmão é um poderoso senador e o acolhe sempre que está com problema, embora essa hospitalidade não seja gratuita. É nítido que há uma certa obrigação por conta dos laços de sangue, há um preço e, também, mui

Não me empurre para os perdidos – polifonia a serviço da trama

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  Por Whisner Fraga Maurício Melo Júnior (1961) é um escritor, jornalista, crítico literário e documentarista pernambucano, conhecido por apresentar o programa Leituras, da TV Senado. É autor de, entre outros, A revolta dos cascudos (Bagaço, 1992), O palhaço que perdeu o riso (Bagaço, 1993), A cidade encantada de Jericoacoara (Bagaço, 1995), É doce viver no mar (Bagaço, 2008), Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! ( Bagaço , 2012), Noites simultâneas (Bagaço, 2017). Não me empurre para os perdidos (CEPE, 2020) foi finalista do Prêmio SESC de Literatura, em 2017. Este romance tem quatro eixos narrativos ou quatro vozes distintas. Max, a primeira, dialoga com um escritor, de quem recebe um pacote, assinado por F. Nesta encomenda se encontra um caderno pautado, em cuja capa está escrito somente 1924, o ano em que se passa a história. Ali estão um diário de F. e uma novela, um folhetim chamado “Dois soldados e uma guerra”. Nesta novela dentro de um romance , um rei divide

As mulheres de Tijucopapo – oralidade na construção da memória

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 Por Whisner Fraga   Marilene Felinto (1957) é uma escritora e tradutora pernambucana. Autora de, entre outros, O lago encantando de Grongonzo (Guanabara, 1987), Postcard (Iluminuras, 1991), Jornalistamente incorreto (Record, 2001), Obsceno abandono – amor e perda (Record, 2002). Atualmente é colunista do jornal Folha de São Paulo. As mulheres de Tijucopapo (Paz e Terra, 1982) venceu o prêmio Jabuti na categoria Literatura Adulta, Autor Revelação e também o prêmio da União Brasileira de Escritores. Esta nova edição, da Ubu, de 2021, traz o prefácio de Beatriz Bracher, o posfácio de Leila Lehnen, um ensaio sobre o conjunto da obra, de João Camillo Penna e quatro textos, chamados de fortuna crítica - o prefácio de Marilena Chauí, publicado originalmente na primeira edição, a orelha de José Miguel Wisnik, uma resenha da poeta Ana Cristina Cesar, que saiu no jornal Leia Livros, em 1982 e uma crítica da Viviana Bosi, da Folha de São Paulo, de 1992, quando saiu a segunda edição do

O deus das avencas - a identidade inacessível

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 Por Whisner Fraga Daniel Galera (1979) é um escritor e tradutor literário paulistano radicado em Porto Alegre. Autor de, entre outros, Até o dia em que o cão morreu (Livros do Mal, 2003), Mãos de cavalo ” (Companhia das Letras, 2006), Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras, 2012), livro do ano do Prêmio São Paulo de Literatura, Meia-noite e vinte (Companhia das Letras, 2016). Este novo livro de Galera é composto por três novelas. Na primeira, intitulada “O deus das avencas”, título extraído da música “Pelos olhos”, de Caetano Veloso, o casal Manuela e Lucas espera um filho. A gestação está na reta final e Manuela deseja um parto humanizado, com a ajuda de doulas, de amigas e do companheiro. A história se passa em Porto Alegre, em 2018, às vésperas da eleição que decidirá o novo presidente da república. Manuela é professora de literatura na PUCRS e Lucas é jornalista free lancer , atuando como ghost writer . Enquanto aguardam o aumento da dilatação para se encaminharem a

Anos de chumbo - imitações de glórias

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  Por Whisner Fraga Francisco Buarque de Hollanda (1944) é um escritor e músico carioca. autor da novela Fazenda Modelo (Civilização Brasileira, 1974), dos romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite derramado (2009), O irmão alemão (2014) e Essa gente (2019), todos editados pela Companhia das Letras. Anos de Chumbo (Companhia das letras, 2021) é composto por oito contos, que versam sobre relações de poder assimétricas, baseadas no abuso e, algumas vezes, na violência. A força é o instrumento utilizado para subjugar, para controlar o outro, em diversas situações, locais e tempos. Os anos de chumbo, muito bem retratados na capa do livro e no projeto gráfico, não são apenas aqueles da ditadura, como inicialmente o leitor pode julgar, mas são ampliados, quase onipresentes. Recorrendo à ironia, ao cinismo, ao humor, as narrativas apresentam situações-limite, personagens sujeitos a interesses, a egoísmos, submetidos a diferentes disputas que, de tão entran