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Carta de um leitor

São Paulo, 25 de fevereiro de 2022.   Caro Whisner, O que logo chama a atenção, em todos os seus contos de O que devíamos ter feito , é o estilo peculiar, singular, a orginalíssima dicção literária, a poesia que atravessa o livro inteiro (tudo “sofisticado”, com “arsenal metafórico e simbólico”, como diz Jamil Snege no prefácio), episódios muitas vezes cruéis (“espécie de cadeia de explosões”), histórias marcadas quase todas pela incerteza dos narradores e personagens, pela indecisão, pelo medo, tudo reflexo da vida perversa atual. Um trabalho primoroso.   Também a estrutura do livro (a sequência dos textos) está muito bem organizada, quase circular, início e fim com as dores da pandemia, a interlocução com a companheira Helena do narrador, entremeada com narrativas em que ela não é citada, um certo intervalo que traz outro tom, ainda bem pessoal, ao texto.   São incontáveis as analogias e metáforas e outras figuras de linguagem e achados literários bastante originais. Cito

Porco de raça – uma distopia brasileira

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 Por Whisner Fraga Bruno Ribeiro (1989) é um escritor, tradutor e roteirista mineiro. Atualmente vive em Campina Grande, Paraíba. Ele é autor dos livros Arranhando paredes ( Bartlebee, 2014), Febre de enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2018), Zumbis (Enclave, 2019), Bartolomeu (Ed. Do Autor, 2019), Como usar um pesadelo (Caos & Letras, 2020) e Porco de raça (DarkSide, 2021). Em 2018 foi finalista do I Prêmio Kindle de Literatura, em 2020 venceu o primeiro prêmio Todavia de não Ficção com um livro reportagem e o primeiro prêmio Machado DarkSide. Esta edição do romance Porco de raça conta com as ilustrações de Vagner Willian. O narrador do livro é um professor paraibano desempregado, negro, sem dinheiro e seriamente encrencado, pois deve para muita gente. O irmão é um poderoso senador e o acolhe sempre que está com problema, embora essa hospitalidade não seja gratuita. É nítido que há uma certa obrigação por conta dos laços de sangue, há um preço e, também, mui

Não me empurre para os perdidos – polifonia a serviço da trama

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  Por Whisner Fraga Maurício Melo Júnior (1961) é um escritor, jornalista, crítico literário e documentarista pernambucano, conhecido por apresentar o programa Leituras, da TV Senado. É autor de, entre outros, A revolta dos cascudos (Bagaço, 1992), O palhaço que perdeu o riso (Bagaço, 1993), A cidade encantada de Jericoacoara (Bagaço, 1995), É doce viver no mar (Bagaço, 2008), Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! ( Bagaço , 2012), Noites simultâneas (Bagaço, 2017). Não me empurre para os perdidos (CEPE, 2020) foi finalista do Prêmio SESC de Literatura, em 2017. Este romance tem quatro eixos narrativos ou quatro vozes distintas. Max, a primeira, dialoga com um escritor, de quem recebe um pacote, assinado por F. Nesta encomenda se encontra um caderno pautado, em cuja capa está escrito somente 1924, o ano em que se passa a história. Ali estão um diário de F. e uma novela, um folhetim chamado “Dois soldados e uma guerra”. Nesta novela dentro de um romance , um rei divide