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Mostrando postagens com o rótulo Hugo Almeida

“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

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1 Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias , há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.  Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, ...

Decomposição dos “nós” de todos nós

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Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, MG, 1966; vive em Portugal desde 2017), Decomposição dos pássaros . A exemplo de seus trabalhos anteriores, a experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis, explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas 96 páginas dessas 10 histórias recentes. Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O coração na alma, a razão na História. O texto de Eltânia não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio próprio, rico,...

Uma obra na linhagem dos grandes escritores

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“Mil corações solitários”, livro que marca a estreia de Hugo Almeida como romancista, é novamente reeditado e chega à quarta edição, agora pela Editora Sinete I Trinta e sete anos depois da primeira edição publicada pela Editora Scipione, de São Paulo, o romance Mil corações solitários , de Hugo Almeida, que conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, este com o título de Carta de navegação , chega a sua quarta edição, agora pela Editora Sinete, também de São Paulo. As outras duas edições saíram pela Scipione, em 1991 e 1994. A obra, desta vez, traz posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado em Portugal, bem como um adendo, uma carta do autor, notícias e artigos sobre o romance, em ordem cronológica. Para Cagiano, trata-se de “uma obra de tamanha força imagética e carga semântica” que significa “um alento e um frescor no meio do lixo literário ungido pelo mercado editorial”. De fato, é um livro que mantém o seu vigor, assumindo-se como um...

“Cicatrizes” no corpo e na alma

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Como todos os dossiês que a revista Cult tem publicado, o do pensador negro norte-americano William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), que ocupa mais da metade da edição de fevereiro de 2025, é um rico e substancial painel da vida e obra do autor contemplado. No texto de abertura, “Redescobrir W. E. B. Du Bois”, Matheus Gato relaciona “temas candentes no debate contemporâneo na esfera pública e nas universidades” presentes na obra do sociólogo e historiador, com “suas formulações mais originais e pioneiras”. Alguns desses temas: branquitude, capitalismo racial, cultura, identidade, imperialismo, colonialismo, racismo, democracia, pós-abolição, pan-africanismo e literatura negra.  Tudo isso aparece também em Cicatrizes (Balaio, 2023), sexto livro do poeta baiano Carlos Machado (Muritiba, 1951). Sim, o livro abarca todos os temas de Du Bois e outros, mais ligados à história do Brasil. Até porque, “não diferem o historiador e o poeta, por escreverem em verso ou prosa (pois que be...

W. J. Solha: autobiografia sem anistia

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Ernest Hemingway (1899-1961) escreveu há 90 anos numa resenha do primeiro romance de John O’Hara (1905-1970): “Se você quer ler um livro de um homem que sabe exatamente sobre o que está escrevendo e o escreveu maravilhosamente bem, leia   Encontro em Samarra ”. Quase um século depois, pode-se dizer isso também sobre a autobiografia de Waldemar José Solha (Sorocaba, SP, 1941; vive em João Pessoa). Sob vários aspectos, W. J. Solha, como assina sua obra, é um fenômeno. Com a publicação da   Autob/i/ografia   (Arribaçã Editora), o leitor brasileiro agora pode saber o quão ricas e fascinantes são a vida e a obra desse artista de múltiplos talentos e prêmios. Poeta, romancista, contista, dramaturgo, letrista, artista plástico, pintor e ator. Ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Cinema de Porto Alegre, em 2013, pela atuação em   O som ao redor , de Kleber Mendonça Filho.  Como escritor, conquistou diversos prêmios, entre eles o Fernando Chinaglia, ...

“Prisão, flores e luar”: mergulho em busca do eu

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A personagem-narradora do romance de Carla Dias desfia uma série de inquietações, nunca contradições pessoais mesquinhas, mas profundas, angustiosas – e que libertam Poesia se faz apenas com palavras? A uma consulta de um poeta de 24 anos, no “Correio” do semanário Zycie Literackie (Vida Literária), a polonesa Prêmio Nobel Wislawa Szymborsksa (1923-2012) respondeu assim: “Não tente ser poético a qualquer preço: a poeticidade é chata, porque é sempre secundária. A poesia, como, aliás, toda a literatura, retira suas forças vitais do mundo em que vivemos, das vivências realmente vividas, das experiências realmente sofridas e dos pensamentos que nós mesmos pensamos. É preciso descrever o mundo continuamente, porque, afinal, ele não é o mesmo de tempos atrás”. [ Correio literário ou como se tornar (ou não) um escritor , tradução de Eneida Favre, Belo Horizonte, Editora Âyiné, 2024, p. 37]. No recente Prisão, flores e luar (Sinete, 2024), Carla Dias [Santo André, 1970; vive em São Paulo] ...

"A felicidade é um inferno" | Amor e solidão nos contos de Jussara de Queiroz

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Nos anos 1970, auge do conto no Brasil, o estado de Minas Gerais chegou a ser chamado de terra do conto. Com justiça. Autores já consagrados anteriores àquela época passaram a ser mais conhecidos e lidos, entre eles Murilo Rubião, Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna. Sem falar em mestres de anos anteriores, como Aníbal Machado e Guimarães Rosa. Na década de 1970, incontáveis ótimos contistas foram revelados em Minas. Hoje o conto não tem mais tanto espaço na mídia nem nas editoras. Uma pena. Mas o gênero segue em alta entre escritores do país inteiro.  Minas continua solar de excelentes contistas, de variadas gerações. Um exemplo expressivo e recente é Jussara de Queiroz (Patrocínio, 1953; vive em Belo Horizonte), autora de A felicidade é um inferno (Nauta, 2024), que traz contos primorosos no enredo, na linguagem e na estrutura. Ela não é escritora estreante. Em 1994, Jussara publicou o romance Voo Rasante (Editora O Lutador), Prêmio BDMG Cultural de Literatura de 1992. É autora vence...

Dois grandes contadores de histórias

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Professor aposentado pela USP, com temporadas em universidades dos Estados Unidos e de Portugal, o romancista, poeta e crítico literário Álvaro Cardoso Gomes [Batatais, 1944; vive em São Paulo] talvez seja o mais eclético e produtivo escritor brasileiro. Autor do best-seller juvenil A hora do amor (1986), tem quase cem livros publicados, a maioria infantojuvenis, alguns vencedores do Prêmio Jabuti, e acaba de lançar o delicioso, emocionante, comovente e às vezes divertido O contador de histórias (FTD, 2024).  Trata-se de uma cativante biografia romanceada do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), de A ilha do tesouro (1883), narrado em primeira pessoa pelo enteado pré-adolescente Lloyd Osbourne, que o chamava de tio Luly, mas o amava como se fosse o verdadeiro pai, seu “pai espiritual”. Álvaro escreve sobretudo acerca da gênese do célebre livro, a vida de Stevenson desde o nascimento, a infância e a juventude e depois a vida alegre e feliz com a escritora norte-americana F...