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Mostrando postagens com o rótulo Acontece convida

O tamanho da fome

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Que está na romaria dos mutilados Que está na fantasia dos infelizes Que está no dia a dia das meretrizes No plano dos bandidos, dos desvalidos Em todos os sentidos O que será (Chico Buarque) “Você tem fome de quê?” perguntam os Titãs na já clássica canção pop Comida , lançada em 1987. E respondem: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Se você tem fome de boa literatura, tenho um prato cheio para lhe oferecer: As fomes inaugurais  (Sinete, 2024), do escritor Whisner Fraga, é um verdadeiro banquete para quem aprecia um bom texto literário. O volume reúne pouco mais de cinquenta pequenos contos que flutuam sobre um mesmo tema: os desvalidos, os invisíveis, os à margem de tudo, os famintos de todo tipo de alimento, para o corpo e para o espírito. Como fragmentos de uma realidade cruel, as pequenas narrativas funcionam como flagrantes trágicos de indivíduos desprezados pela sociedade, mendigos, sem tetos, prostitutas, sujeitos a todas as formas possíveis ...

Caixa de vazios

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A recente publicação de Caixa de vazios  - poesias, da autoria do escritor mineiro (de Uberaba), Vicente Humberto, pela editora Ficções, suscita uma curiosidade oriunda de ideias antagônicas: uma caixa cheia de vazios? Ou uma caixa vazia? Temos portanto já no título, o sentido conotativo (associação subjetiva), além do sentido literal que se poderia esperar. Mas não é isso mesmo que a literatura opera com a linguagem?  Esta que é talvez, a nossa mais cara invenção? Indispensável e bela, a linguagem, entretanto, nunca é estática e absoluta, sempre fluida, sempre múltipla e viva como pássaros em voo. Assim, curiosos, retiramos a tampa dessa caixa de Vicente Humberto pensando de antemão que encontraremos a linguagem revelação de mundos, recriação de mundos. Três compartimentos ou seções dividem a obra:  “Uma árvore quase pronta”, “Fazenda Harmonia” e “Sombra feliz”, a reunir ao todo, 96 poemas. O autor que também é engenheiro de formação constrói uma obra marcada pela simpli...

"A felicidade é um inferno" | Amor e solidão nos contos de Jussara de Queiroz

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Nos anos 1970, auge do conto no Brasil, o estado de Minas Gerais chegou a ser chamado de terra do conto. Com justiça. Autores já consagrados anteriores àquela época passaram a ser mais conhecidos e lidos, entre eles Murilo Rubião, Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna. Sem falar em mestres de anos anteriores, como Aníbal Machado e Guimarães Rosa. Na década de 1970, incontáveis ótimos contistas foram revelados em Minas. Hoje o conto não tem mais tanto espaço na mídia nem nas editoras. Uma pena. Mas o gênero segue em alta entre escritores do país inteiro.  Minas continua solar de excelentes contistas, de variadas gerações. Um exemplo expressivo e recente é Jussara de Queiroz (Patrocínio, 1953; vive em Belo Horizonte), autora de A felicidade é um inferno (Nauta, 2024), que traz contos primorosos no enredo, na linguagem e na estrutura. Ela não é escritora estreante. Em 1994, Jussara publicou o romance Voo Rasante (Editora O Lutador), Prêmio BDMG Cultural de Literatura de 1992. É autora vence...

Um rápido abraço da tradução em Rimbaud

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Aqui, trata-se de Arthur Rimbaud. No mês de outubro de 2024 completaram-se exatos 170 anos desde o nascimento desse vulto estelar (que assim o foi pelo menos durante certo período de sua curta vida – “partiu” do mundo com a idade de 37 anos!). Comecemos por visualizar, grosso modo, a vida ao mesmo tempo surpreendente e explosiva desse precoce jovem Rimbaud que, aos vinte anos, era já autor de trabalho poético lapidado à perfeição. Sua criação literária em verso e prosa é de tal modo vigorosa e auspiciosa que alguns críticos lhe atribuem todo o caudal sequente que desembocaria na então poesia de vanguarda. Rimbaud concebia sua obra como resultado, ao mesmo tempo, condicionado por, e condicionante de sua vida. Resultado a que ele pensava chegar pelo esforço da vontade, mas paralelamente pelo desregramento de todos os sentidos, dois aspectos aparentemente inconciliáveis que, assim concebidos, afloram um dilema. Tema para outro texto. A seguir, soneto de Arthur Rimbaud, em francês e com re...

Dois grandes contadores de histórias

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Professor aposentado pela USP, com temporadas em universidades dos Estados Unidos e de Portugal, o romancista, poeta e crítico literário Álvaro Cardoso Gomes [Batatais, 1944; vive em São Paulo] talvez seja o mais eclético e produtivo escritor brasileiro. Autor do best-seller juvenil A hora do amor (1986), tem quase cem livros publicados, a maioria infantojuvenis, alguns vencedores do Prêmio Jabuti, e acaba de lançar o delicioso, emocionante, comovente e às vezes divertido O contador de histórias (FTD, 2024).  Trata-se de uma cativante biografia romanceada do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), de A ilha do tesouro (1883), narrado em primeira pessoa pelo enteado pré-adolescente Lloyd Osbourne, que o chamava de tio Luly, mas o amava como se fosse o verdadeiro pai, seu “pai espiritual”. Álvaro escreve sobretudo acerca da gênese do célebre livro, a vida de Stevenson desde o nascimento, a infância e a juventude e depois a vida alegre e feliz com a escritora norte-americana F...

A anti-terapia para um tempo distópico

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Alexandre Willer traz nas histórias de seu novo livro “Placebo para o dia-a-dia” (Ed. Folhas de Relva, SP, 2023) uma panóplia de situações, ocorrências, encontros & desencontros, nos quais seus personagens transitam em permanente desassossego, num embate nos becos-sem-saída de suas experiências existenciais. Como sinaliza o sugestivo e instigante título, não há cura ou escapatória para os passivos e dèbacles que contornam as vidas desses viventes que digladiam com suas realidades, sejam elas sociais, emocionais, afetivas ou psicológicas – toda tentativa de cicatrização, cura ou fuga redunda na frustração ou tiro no pé. Os desatinos, o desencanto, as dores & delícias  dialogam entre si nesses contos, a partir de um observatório sutil e exegético deflagrado pelo autor sobre os flagrantes do quotidiano e as contingências de uma contemporaneidade que tem experimentado tantas crises e dilemas nos últimos anos, como o fracasso diante da pandemia da covid-19 e a barbárie das guer...

Solidão e redescoberta em “Bakken”, de Julia Barandier

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Antônio, protagonista de “Bakken” (7Letras), demonstra ser um personagem complexo já nas primeiras linhas do livro de estreia de Julia Barandier. Parece entender sua atual situação com clareza, mesmo que por vezes tente negá-la. Finge não ter saudades, para depois se desmentir. Esconde emoções, para mais tarde evidenciá-las – e quase sempre com uma dose de autoflagelo.  O personagem central do romance é um brasileiro de meia idade que acaba de se mudar para Copenhagen, na Dinamarca, com o objetivo de construir uma nova vida após um divórcio mal resolvido. Aborda seu dia a dia de pouco movimento em cartas dedicadas (embora jamais enviadas) à ex-esposa. Em cada uma delas, discorre – em tom poético e por vezes melancólico – sobre aspectos de sua nova realidade: a solidão, o clima, as paisagens e a língua.  Já nesse início da narrativa, a autora Julia Barandier mostra uma voz literária bastante definida, madura e fluída. Sua prosa poética transita entre diferentes gêneros literári...

Traumas e afetos em “As sete mortes do meu pai”, de Humberto Conzo Junior

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Publicado no fim de 2022 pela Mondru, “As sete mortes do meu pai”, de Humberto Conzo Junior, é um romance de rara coragem e delicadeza. Na trama, o personagem-narrador recebe a notícia de que seu pai morreu e se vê assombrado por memórias contrastantes, que se alternam entre momentos de felicidade (estes mais raros) e situações traumáticas.  O cenário se torna ainda mais delicado para o protagonista quando Daysi, atual esposa de seu pai, afirma que ele não é filho biológico do homem que acaba de morrer. Embora não chegue a levar a afirmação tão a sério, a provocação impulsiona o mergulho a um passado marcado por desafetos, idas e vindas, discordâncias e, claro, amor.  Humberto Conzo Junior constrói o romance como uma autoficção, ao falar a respeito de sua própria família sem se preocupar em romantizar as relações. Também por isso, esse não é um livro convencional sobre o luto, a começar pelo personagem do pai, que claramente está bem distante daquela imagem de protetor, onipot...

'Gerúndio a dois': os inusitados encontros entre escritores

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Por Bruno Inácio Recém-lançado pela Folhas de Relva, o livro Gerúndio a dois: Escritores brasileiros contemporâneos conversando com seus pares é uma das coletâneas de contos mais originais e instigantes dos últimos anos. Na obra, como o título já sugere, autores e autoras em evidência no atual cenário literário brasileiro imaginam encontros com escritores e escritoras que admiram.  Ao longo de pouco mais que 140 páginas, as narrativas transitam com naturalidade entre o cotidiano e o realismo mágico e entre o universo onírico e a intimidade coloquial, num ritmo preciso e contínuo.  Há, evidentemente, quem prefira os encontros nos sonhos, com conselhos e trocas de experiências, como fazem os autores Vagner Amaro (que dialoga com Machado de Assis) e Marcelo Maluf (que toca bateria com Fernando Sabino).  Porém, existem encontros bastante inusitados, como no conto em que Thais Lancman recebe ajuda de ninguém menos que Lygia Fagundes Telles para trocar o pneu do carro ou quand...