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“Cicatrizes” no corpo e na alma

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Como todos os dossiês que a revista Cult tem publicado, o do pensador negro norte-americano William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), que ocupa mais da metade da edição de fevereiro de 2025, é um rico e substancial painel da vida e obra do autor contemplado. No texto de abertura, “Redescobrir W. E. B. Du Bois”, Matheus Gato relaciona “temas candentes no debate contemporâneo na esfera pública e nas universidades” presentes na obra do sociólogo e historiador, com “suas formulações mais originais e pioneiras”. Alguns desses temas: branquitude, capitalismo racial, cultura, identidade, imperialismo, colonialismo, racismo, democracia, pós-abolição, pan-africanismo e literatura negra.  Tudo isso aparece também em Cicatrizes (Balaio, 2023), sexto livro do poeta baiano Carlos Machado (Muritiba, 1951). Sim, o livro abarca todos os temas de Du Bois e outros, mais ligados à história do Brasil. Até porque, “não diferem o historiador e o poeta, por escreverem em verso ou prosa (pois que be...

A marcha sensorial rumo à liberdade

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Amores terás vivido , o mais recente romance de Wilson Loria, publicado pela Editora Patuá, em 2024, narra a história de Nelson, um jovem que deixa Cuba e se muda para os Estados Unidos, no início da revolução cubana. O leitor acompanha a jornada do protagonista, desde a fuga até as experiências no novo país, explorando temas como liberdade, paixão e busca pela identidade. A opressão política e social, o desconforto com as mudanças na ilha, o medo da repressão e, principalmente, um profundo desejo por liberdade sexual, são fatores que impulsionam essa partida. A família de Nelson desempenha papel fundamental em toda a obra. O pai é o responsável pela compra das passagens, a mãe o suporte emocional, o amor incondicional, os irmãos como símbolos da relação entre passado e presente. A lembrança dos entes queridos, que permanece em Cuba, é muito presente no romance, e simbolizada por cartas recebidas, que dão, ao leitor, um panorama do contexto cubano da época.  Os Estados Unidos, país...

A anti-terapia para um tempo distópico

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Alexandre Willer traz nas histórias de seu novo livro “Placebo para o dia-a-dia” (Ed. Folhas de Relva, SP, 2023) uma panóplia de situações, ocorrências, encontros & desencontros, nos quais seus personagens transitam em permanente desassossego, num embate nos becos-sem-saída de suas experiências existenciais. Como sinaliza o sugestivo e instigante título, não há cura ou escapatória para os passivos e dèbacles que contornam as vidas desses viventes que digladiam com suas realidades, sejam elas sociais, emocionais, afetivas ou psicológicas – toda tentativa de cicatrização, cura ou fuga redunda na frustração ou tiro no pé. Os desatinos, o desencanto, as dores & delícias  dialogam entre si nesses contos, a partir de um observatório sutil e exegético deflagrado pelo autor sobre os flagrantes do quotidiano e as contingências de uma contemporaneidade que tem experimentado tantas crises e dilemas nos últimos anos, como o fracasso diante da pandemia da covid-19 e a barbárie das guer...

Solidão e redescoberta em “Bakken”, de Julia Barandier

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Antônio, protagonista de “Bakken” (7Letras), demonstra ser um personagem complexo já nas primeiras linhas do livro de estreia de Julia Barandier. Parece entender sua atual situação com clareza, mesmo que por vezes tente negá-la. Finge não ter saudades, para depois se desmentir. Esconde emoções, para mais tarde evidenciá-las – e quase sempre com uma dose de autoflagelo.  O personagem central do romance é um brasileiro de meia idade que acaba de se mudar para Copenhagen, na Dinamarca, com o objetivo de construir uma nova vida após um divórcio mal resolvido. Aborda seu dia a dia de pouco movimento em cartas dedicadas (embora jamais enviadas) à ex-esposa. Em cada uma delas, discorre – em tom poético e por vezes melancólico – sobre aspectos de sua nova realidade: a solidão, o clima, as paisagens e a língua.  Já nesse início da narrativa, a autora Julia Barandier mostra uma voz literária bastante definida, madura e fluída. Sua prosa poética transita entre diferentes gêneros literári...

Traumas e afetos em “As sete mortes do meu pai”, de Humberto Conzo Junior

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Publicado no fim de 2022 pela Mondru, “As sete mortes do meu pai”, de Humberto Conzo Junior, é um romance de rara coragem e delicadeza. Na trama, o personagem-narrador recebe a notícia de que seu pai morreu e se vê assombrado por memórias contrastantes, que se alternam entre momentos de felicidade (estes mais raros) e situações traumáticas.  O cenário se torna ainda mais delicado para o protagonista quando Daysi, atual esposa de seu pai, afirma que ele não é filho biológico do homem que acaba de morrer. Embora não chegue a levar a afirmação tão a sério, a provocação impulsiona o mergulho a um passado marcado por desafetos, idas e vindas, discordâncias e, claro, amor.  Humberto Conzo Junior constrói o romance como uma autoficção, ao falar a respeito de sua própria família sem se preocupar em romantizar as relações. Também por isso, esse não é um livro convencional sobre o luto, a começar pelo personagem do pai, que claramente está bem distante daquela imagem de protetor, onipot...

A orelha de Van Gogh e outras alegorias mundanas

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  Por Whisner Fraga Moacyr Scliar (1937-2011) foi um escritor gaúcho, autor de mais de setenta livros, entre romances, novelas, reuniões de contos, crônicas e ensaios. Entre os romances, é importante destacar O exército de um homem só (LP&M, 1973), Mês de cães danados (LP&M, 1977), A estranha nação de Rafael Mendes (LP&M, 1983), A mulher que escreveu a Bíblia (Companhia das Letras, 1999) e Manual da paixão solitária (Companhia das Letras, 2008). Dos volumes de contos, é preciso citar A balada do falso Messias (Ática, 1976), Histórias da terra trêmula (Escrita, 1976) e este A orelha de Van Gogh (Companhia das Letras, 1989), vencedor do Casa de Las Américas, do mesmo ano, certamente o prêmio literário mais importante da américa hispano portuguesa. Ganhou 8 vezes o Jabuti, principal honraria aos autores pátrios e foi membro da Academia Brasileira de Letras.   Scliar teve como tema principal de sua obra o judaísmo. Ele narrava seguindo o modelo das parábolas...