Elza Freire e Paulo Freire - uma fotobiografia
A publicação do livro “Elza Freire e Paulo Freire - uma fotobiografia”, de autoria da escritora e professora da Unicamp Nima Spigolon, constitui oportuno resgate de imagens que registram a trajetória de vida de um dos intelectuais de maior relevo no Brasil no século XX. Esta fotobiografia, que o público brasileiro tem acesso, para além das imagens reproduzidas, configura-se verdadeiro mosaico imagético do Patrono da Educação Brasileira, como assim o classifica a lei nº 12.612, sancionada em 13 de abril de 2012. Lembre-se, ou melhor, revele-se também que o patronato (daquele que luta e apoia causas e valores elevados), atribuído à Freire, foi também e ainda durante sua vida, endossado não somente pelo prêmio da UNESCO de Educação para a Paz em 1986, e mais ainda, com a distinção de pelo menos 35 títulos de Doutor Honoris Causa conferidos por diversas universidades da Europa e América. É muito; e ainda não é tudo.
A “fotobiografia” do casal Freire teve seu projeto editorial contemplado pelo Programa de Ação Cultural - ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, e contou também com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) do Ministério da Cultura e Governo Federal. Um resgate, repetimos, em um país de memória tão curta como o nosso.
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, no ano de 1921. Já em 1943 entrou para a então Universidade do Recife visando cursar Direito. Ele sempre nutriu forte atração para os estudos de filosofia da linguagem e, talvez por isso mesmo, nunca exerceu a profissão e preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau lecionando língua portuguesa, onde conheceu a colega de trabalho Elza Maia Costa de Oliveira, com que se casou em 1944. Um casamento que durou até 1986, ano de falecimento dela. Dos anos 40 até os anos 60, Paulo e Elza também desenvolveram finos e acurados estudos no sentido de minorar a imensa chaga do analfabetismo no Brasil, que nada mais era do que reflexo da grande e secular colonização portuguesa escravista. Chegamos ao ano de 1963 quando, a convite do governo do Rio Grande do Norte, Freire propôs iniciativa-piloto de alfabetização na cidade de Angicos, onde teria a oportunidade de testar em grande escala o método de alfabetização que vinha desenvolvendo. Assim foi. Em apenas 40 horas, trezentas pessoas foram alfabetizadas. Em verdade, Freire já havia iniciado práticas de alfabetização de adultos poucos anos antes. Foi responsável pela área de educação de jovens e adultos do Movimento de Cultura Popular (MCP), apoiado por Miguel Arraes, então prefeito do Recife.
Por aqueles anos, já o projeto educacional que os Freire vinham desenvolvendo encontrou o apoio do então presidente da república João Goulart que tentava levar a efeito o seu projeto de “nacionalismo desenvolvimentista” a se empenhar na realização de reformas de base. Foi criado um Plano Nacional de Alfabetização, almejando também a formação de educadores em massa e rápida implantação de 20 mil núcleos (os "círculos de cultura") pelo País.
Em 1964, meses depois de iniciada a implantação do Plano, abateu-se sobre o Brasil o nefasto golpe militar que extinguiu esse esforço, e se encarregou de exilar no exterior grande parte da Intelligentia brasileira de então. Paulo foi preso como traidor. Um “subversivo” e, pasmem!; como um “ignorante” por 70 dias. Segue-se breve exílio na Bolívia, depois trabalhou no Chile, por cinco anos para o Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Em 1967, durante o exílio chileno, publicou no Brasil seu primeiro livro, “Educação Como Prática da Liberdade”, baseado fundamentalmente na tese Educação e Atualidade Brasileira.
O sucesso dessa obra levou ao convite para ser professor visitante em duas prestigiosas universidades: Harvard e Cambridge. Observe-se ainda que, no ano de 1968, ele havia concluído a redação de seu mais famoso livro (dentre os tantos que escreveu), “Pedagogia do Oprimido”, o qual foi publicado em várias línguas mas, publicado no Brasil somente em 1974. Após Cambridge, Freire mudou-se para Genebra, na Suíça (1971-1979), trabalhando como consultor educacional do Conselho Mundial de Igrejas. Durante esse tempo, atuou como consultor em reformas educacionais em ex-colônias portuguesas na África. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Com a Anistia, em 1979, Freire retorna ao Brasil. De volta, foi nomeado secretário de Educação da cidade de São Paulo e exerceu esse cargo de 1989 a 1991. Dentre as marcas de sua passagem pela secretaria municipal de Educação está a criação do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, um modelo de programa público de apoio a salas comunitárias de Educação de Jovens e Adultos.
Os pilares sobre os quais se assentou o pensamento de Paulo Freire – em breves linhas que cabem num texto de resenha –, e segundo ele mesmo, sugeriam a educação dialógica, isto é, fundamentada no diálogo. Tal educação é também problematizadora, pois induz os educandos a terem uma postura crítica ante a realidade que os oprime. E frise-se que sua pedagogia dialógica se diferenciou do "vanguardismo" dos intelectuais de esquerda de então, porque defendia o diálogo com as pessoas simples e não a imposição de ideias pré-concebidas sobre elas (o que, para Freire, seria mero ativismo). E mais: “Nenhuma pedagogia que seja verdadeiramente libertadora pode permanecer distante do oprimido, tratando-os como infelizes e apresentando-os aos seus modelos de emulação entre os opressores. Os oprimidos devem ser o seu próprio exemplo na luta pela sua redenção.” Ainda segundo Freire, “o sistema de relações sociais dominantes cria uma ‘cultura do silêncio’, que infunde uma autoimagem negativa, silenciada e suprimida aos oprimidos. O aluno deve desenvolver uma consciência crítica, a fim de reconhecer que esta cultura do silêncio é criada para oprimir. A cultura do silêncio também pode fazer com que os indivíduos dominados percam o meio pelo qual respondem de forma crítica à cultura que é forçada sobre eles pela cultura dominante”.
Registre-se ainda, e finalmente, que a apresentação visual desta obra revela mais do que o admirável trabalho de recolhimento e análise levado a efeito pela professora Spigolon, que contou com exaustivas visitas a arquivos, acervos, países, cidades; contribuição de familiares, amigos e companheiros de trabalho do casal; e também com trabalhos acadêmicos no mestrado, doutorado e pós-doutorado da autora. Fruto de quase duas décadas de pesquisa de Nima Spigolon, o livro reúne documentos, cartas e fotografias inéditas que revelam o papel essencial de Elza na formação do pensamento político-pedagógico de Paulo Freire. Da vida em Recife ao exílio e ao retorno ao Brasil, a obra resgata memórias, afetos e lutas compartilhadas.
Elza nasceu em Recife, em 1916, cursou, nos anos de 1930, a Escola Normal de Pernambuco, e escolheu a educação como seu caminho. O encontro dos dois, sem dúvida, despertou ou acentuou em Paulo a inclinação para a educação, desde lá nos anos 50 quando juntos, atuaram no Instituto Capibaribe, em Recife. Elza (que pouca gente sabe, afinal) não foi somente a mãe dos filhos que teve com Paulo (Madalena, Cristina, Fátima, Joaquim e Lutgardes), foi também educadora, mulher, politizada, crítica, diretora de escola e cidadã extremamente engajada em causas sociais, tanto antes de Paulo Freire quanto depois. Inegável sua ativa participação no percurso de Paulo, na consolidação de seu pensamento político-pedagógico de pauta humanitária.
Paulo Freire, certa feita, afirmou que “gostaria de ser lembrado como alguém que amou as pessoas, as plantas, as águas, os animais”. Acrescentou ainda que, “enquanto seres humanos nos encontramos em incompletude, o que nos provoca a proeza da coletividade. A educação é um dos caminhos de comunhão. Um esforço e uma alegria coletiva da potência de nossas criatividades e dialogicidades para ler o mundo, se compreender nele, transformar as suas realidades e ampliar sua boniteza a partir da amorosidade e do inédito-viável.”
Na escola chamada vida, em que todos estamos matriculados, o caminho se faz caminhando pelas vias da educação que pode afinal, propiciar as mudanças sociais de que tanto necessitamos. Paulo Freire morreu em 2 de maio de 1997. Vinte e oito anos decorreram de sua partida e, ainda hoje, o Brasil amarga a triste realidade de possuir 9,1 milhões de analfabetos. Dos ditos alfabetizados, 3 em cada 10 não conseguem interpretar um texto. Cerca de 29% da população são analfabetos funcionais, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Leem, mas não entendem...
Que nos sirva, ainda, de estímulo tardio a história de Elza e Paulo Freire, o casal que desde os anos de 1950, e incansavelmente, deu a sua contribuição para transformar o nosso meio social por meio da educação. Aprendizagens que passaram pelas vias das experiências (algumas penosas), e da larga amorosidade que os uniu, sem nunca os afastar da esperança e da luta política. Eis afinal, o maravilhoso registro e exemplo que esta fotobiografia encerra.
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Elza Freire e Paulo Freire - uma fotobiografia, de Nima Spigolon, São Paulo: Sinete, 2025, 232 páginas, R$ 65,00. Disponível na editora e na Amazon. www.editorasinete.com.br.
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Krishnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema, À flor da pele – Contos e Destinos que se cruzam - Romance. Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.

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