"Sem experiência", Maurício Mendes
Era a quinta vez que nos víamos naquele abril. Para mim, isso já significava alguma coisa.
— Tu vai demorar no banho?
— Demoro não. Tenho pacientes daqui a pouco.
Sofia fez um coraçãozinho com as mãos.
— Imaginei. Você sempre tem alguma coisa para daqui a pouco.
Em menos de uma hora, eu estaria numa clínica de ultrassonografia examinando grávidas de alto risco. Mediria fêmures, fluxos alterados. Diria frases calmas a mulheres de olhos fixos no teto.
Sofia estudava artes. Falava de um jeito leve. Lembrava detalhes pequenos — que eu gostava dos Smiths —, mas nunca deixava claro se aquilo era atenção ou método.
Liguei o chuveiro. A água saiu quente. O calor ainda estava em tudo. O cheiro de Sofia resistia na pele.
Ouvi o telefone tocar no quarto.
— Oi, amor.
O ruído da água cobria parte da conversa. Sofia chamava alguns homens de amor. Não todos.
— Hoje não dá.
— Isso eu nunca fiz.
Fechei os olhos.
— Não tenho experiência — Sofia disse.
Estar ali também exigia alguma experiência de minha parte.
— Uma vez só. Em São Paulo. Mas tinha outra garota.
Sofia riu.
— Não, querido. Não é assim.
Terminei o banho. Procurava uma toalha para não pensar na conversa.
Eu me organizava para que houvesse sempre um lugar aonde voltar: a sala escura, o monitor, o transdutor, o gel. Família ficava fora da lista. Havia homens que gostavam de ficar. Para mim, ficar parecia obsceno.
O flat ficava num prédio novo, de temporada, na Abolição, perto da Beira Mar. Controle de acesso, reconhecimento facial. O tipo de lugar feito para que ninguém conhecido se encontrasse.
— Quanto?
Houve silêncio.
— Não, aí muda. Muda tudo.
Saí do banheiro.
Sofia estava perto da cama, ainda nua, o celular entre o ombro e o ouvido. Com a mão livre, acrescentava Morrissey à playlist que fazia para mim.
Ela me viu.
— Peraí — disse ao telefone.
Tapou o microfone.
— Você vai molhar o chão todo.
— Minha roupa tá aí?
Ela apontou para a cadeira sem olhar.
Vesti-me em silêncio. Eu sabia que deveria ir embora. Também sabia que sair naquele instante exigiria uma dignidade para a qual eu não estava preparado.
Sofia voltou à ligação.
— Tá. Mas eu tô falando que não tenho experiência. Não, amor, vergonha eu não tenho.
Ela olhou para mim quando disse isso. Ou talvez eu tenha imaginado.
— Amanhã não. Quinta talvez. Hoje, só se for agora. Metade do valor, pra reservar.
Calcei o primeiro sapato. Sofia caminhou até a porta do banheiro.
Parei com o outro sapato na mão.
— O que foi?
Ela se encostou no batente e me contou o pedido.
Disse aquilo quase sem mudar o rosto. Do mesmo jeito que poderia dizer que precisava comprar acetona.
— Como é?
Sofia olhou para o celular, depois para mim.
— Tu ouviu.
— Um homem?
— Alguém com pinto.
Calcei o outro sapato.
— Não parece simples.
— Pra quem?
Não respondi.
Ela digitou alguma coisa.
— Você vai precisar sair.
— Escuta, o cara já tá vindo.
Olhei o relógio.
— Depois você me conta como foi?
— Não tem nada demais. É só o desejo de um cliente.
Peguei a carteira, o celular, a chave do carro. Quando saí, ouvi a voz dela atravessar o quarto:
— Se quiser, faço com você também.
Embaixo, o hall estava gelado. Passei pelo reconhecimento facial com a sensação de que o prédio sabia mais do que devia.
Entrei no carro.
Havia mensagens da clínica. Uma paciente já estava na sala. A secretária perguntava se eu demoraria. Respondi:
Chegando.
Não liguei o motor.
A Abolição fervia atrás do para-brisa. Ainda dava tempo de chegar atrasado, lavar as mãos duas vezes, medir um fêmur pequeno.
Quinze minutos depois, um carro parou diante do prédio. Desceu um homem de camisa social clara, sem gravata. Não era velho. Não era ridículo. Tinha o cabelo úmido, recém-penteado. Conferiu o celular, olhou para os lados e entrou.
Desci do carro.
Na portaria, ele não fez cadastro. Aproximou o rosto da tela e passou normalmente. O porteiro não ergueu os olhos.
Fiquei do lado de fora.
A secretária ligou outra vez. Deixei tocar.
Pelo vidro, ainda alcancei o homem esperando o elevador. Ele abriu o primeiro botão da camisa. Depois o segundo. Parecia limpo demais para o que eu queria pensar dele.
Meu celular vibrou.
Doutor, a paciente está chorando.
Li a mensagem. Depois voltei os olhos para o fundo do hall. O homem já tinha desaparecido.
Pensei em subir.
Se quiser, faço com você também.
Digitei:
Estou a caminho.
Apaguei.
Fiquei parado diante da portaria, esperando o reconhecimento facial devolver meu rosto.
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Maurício Mendes é médico especialista em Medicina Nuclear e residente em Fortaleza, é autor do livro O homem não foi feito para ser feliz, um romance instigante que explora os desafios existenciais contemporâneos. Apaixonado por literatura, mantém uma página sem fins lucrativos no Instagram para promover novos talentos literários e lidera um clube presencial de leitura. Com uma abordagem irônica e reflexiva, suas narrativas desafiam o leitor a questionar certezas e encarar as fragilidades da realidade.


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